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Às vésperas de uma amiga receber alta hospitalar, após ser submetida a uma cirurgia, a diarista Paloma (nome é fictício) tenta ajudá-la a pensar em meios de retornar para casa. As duas moram no bairro de Valéria, em Salvador, um dos epicentros dos conflitos entre facções e entre os criminosos e a polícia. A intensificação da violência na Bahia tem chamado atenção nos últimos meses e pressionado o governo local e a gestão federal a adotar medidas mais concretas.
“Carro de aplicativo não quer entrar, não temos o nosso, e o ônibus para longe. Como uma pessoa com a barriga cheia de ponto volta para casa assim?”, questiona a trabalhadora doméstica, sem expectativas de respostas. No início desta semana, uma menina de 6 anos foi morta
A situação tem afetado o cotidiano de milhares de famílias, sobretudo aquelas que vivem nas periferias das cidades. O Estado, sob gestão de Jerônimo Rodrigues (PT), já registrou ao menos 68 mortes durante operações policiais em setembro, segundo o Instituto Fogo Cruzado, e um número não conhecido de criminosos que morreram em conflitos entre eles.
Vizinhos ao conflito, moradores temem o recrudescimento da violência. É o que acontece diariamente com Paloma. “Não temos condições nem de dormir, nem de trabalhar, nem de sair do próprio bairro. Não tem segurança pública dentro das comunidades. Nem o sistema de segurança pública nos dá segurança”, desabafa a diarista.
A morte do policial federal Lucas Caribé, durante uma operação no bairro, no dia 15 de setembro, intensificou a busca por criminosos na região. Além do agente, morreram quatro suspeitos de integrarem organizações criminosas. Na última sexta-feira, 29, mais um criminoso, segundo a Polícia Militar (PM) da Bahia, morreu após incursões policiais no bairro.
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Valéria é disputada por duas facções criminosas: o Bonde do Maluco, cujas iniciais estão pichadas nos muros de algumas casas, e o Comando Vermelho, que tenta reaver territórios perdidos. A área é considerada um ponto estratégico para os criminosos, pois fica às margens de duas rodovias: a BR-324 e da BA-528.
Pela janela de casa, Paloma observa a movimentação desses criminosos – muitos deles com fuzis nas mãos – e viaturas policiais. Há dois meses, ela decidiu colocar a casa onde mora desde os anos 90 à venda. “Quem pode abandona a casa por medo de morrer”, diz a baiana. Nesse período, já deixou de ir ao trabalho porque os ônibus deixaram de circular no bairro ou pelo terror do que pode acontecer no caminho.
Da casa dela até o ponto de ônibus mais próximo, são três quilômetros de distância. Um dos receios dela é encontrar policiais no percurso e depois ser penalizada pelas organizações criminosas locais, caso responda o que os agentes perguntam.
Paloma cria estratégias para se sentir menos exposta a esses riscos. Ela e quatro amigas que moram próximas, todas trabalhadoras domésticas, saem juntas às 5h para esperar o transporte coletivo.
“Quando os policiais chegam, querem nos perguntar onde está a boca (área de venda de drogas), e se tivermos celular, eles querem ver o celular. Outro dia meu choque foi tão grande que minha menstruação escorreu pelas pernas”, conta.
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No último domingo, 1º, uma criança de 6 anos foi assassinada, dentro de casa, a 11 quilômetros de onde Paloma vive. De acordo com a Polícia Civil (PC), quatro criminosos invadiram a residência da família da menina e dispararam contra ela e um homem. O crime será investigado pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa.
“Precisamos das políticas públicas dentro dessas comunidades. Nós mulheres negras somos quem mais choramos. Crianças estão morrendo brincando na frente de casa”, lamenta Paloma, que, naquele bairro, criou os filhos e ajudou na lida com os netos.
Se for embora de Valéria, Paloma deixa para trás parte da sua história. É o caso de um projeto criado por ela e pelas amigas para cuidar de filhos de outras mulheres que trabalham todos os dias fora de casa. Elas se revezam na função, pois sabem da precariedade do acesso aos serviços mais básicos, como creches e escolas em tempo integral.
“Muitas dessas crianças já perderam os pais. As mães deixam eles em casa sem saber o que vai acontecer”, lamenta Paloma, que conhece as tramas desse enredo, porque o vivenciou por décadas.
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública da Bahia disse que entre 2016 e 2022, as mortes violentas apresentaram redução de 22,5% na Bahia. “Em 2023, de janeiro a agosto, a diminuição dos assassinatos é de 3,3%. Nesse mesmo período, os feminicídios recuaram 12% e as explosões de agências bancárias tiveram queda de 45%.”
“Nos primeiros oito meses de 2023, ações das forças de segurança prenderam pouco mais de 13 mil pessoas envolvidas em crimes, uma média de 50 por dia. Aproximadamente quatro mil armas de fogo, cerca de 14 por dia, foram apreendidas, entre elas 48 fuzis, número que corresponde ao dobro localizado em todo o ano de 2022″, detalhou a pasta.
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A SSP reforçou que o combate às facções, “responsáveis por cerca de 70% das mortes violentas, seguirá como prioridade”.
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