ARTIGO/SUEME MORI: AMIGOS, AMIGOS, NEGÓCIOS (NEM … – Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA)

6 de setembro de 2023

Quando o assunto é “misturar amizade e negócios”, o consenso passa longe. Há aqueles que advogam a favor e outros que só enxergam desvantagens. No comércio internacional, até alguns anos atrás, a máxima que prevalecia era: a escolha do local de produção ou de aquisição de bens e matéria-prima deveria ser baseada primordialmente nos custos da operação, ou seja, onde for mais barato, melhor.

Desde a crise global financeira de 2008, o debate sobre o possível fim da globalização ganhou força. Foi nesse contexto que surgiram termos como o “slowbalization”, um acrônimo das palavras slow (lento) e globalization (globalização) para descrever uma desaceleração nas iniciativas de integração socioeconômica entre os países. Estes conceitos e premissas têm sido amplamente revisitados após a pandemia da Covid-19 e do avanço russo sobre a Ucrânia.

Devido aos graves choques sofridos pelas cadeias globais de valor nos últimos anos, vários países buscam adotar medidas que visam minimizar futuros impactos no fornecimento de bens e serviços causados por fatores exógenos, garantindo maior controle sobre os insumos e produtos essenciais para o funcionamento pleno das economias nacionais.

Novas tendências com raízes nos mesmos aspectos que foram mote para o slowbalization ganham força no comércio internacional. O reshoring e o onshoring, que se referem a aquisição de bens produzidos localmente ou de países próximos, são exemplos de iniciativas que visam tornar mais estáveis as rotas do comércio mundial, porém a grande novidade fica a cabo do friendshoring.

Traduzindo, friendshoring significa priorizar as nações amigas (friends), aliadas no xadrez geopolítico, para fazer negócios, seja na posição de comprador ou de investidor, realocando as cadeias de suprimentos para países percebidos como política e economicamente seguros ou de baixo risco, para evitar a interrupção do fluxo do comércio.

Em junho do ano passado, a Secretária de Tesouro dos Estados Unidos, Janet Yellen, defendeu o friendshoring como um dos caminhos para garantir a ampliação do acesso a mercados, reduzindo os riscos para a economia americana e dos parceiros comerciais confiáveis. Na fala, ela puxa a orelha dos países que estão “em cima do muro” e não se juntaram ao grupo de nações que, publicamente, adotaram medidas de sanção contra a Rússia, em defesa do que ela chamou de “ordem internacional”. Questionada sobre a possibilidade de um sistema global bipolar, com Estados Unidos e seus aliados de um lado e China e demais no outro, Yellen respondeu que realmente espera que isso não aconteça.

Essa possível polarização não necessariamente levaria a uma melhoria nas condições econômicas mundiais, como evidenciado em um relatório da OMC que estima uma redução de 5% no PIB mundial, no caso de uma fragmentação da economia global em dois blocos.

Nesse mundo caminhando para a bipolaridade, de que lado está o Brasil? A resposta correta seria: do lado do Brasil. Como o terceiro maior exportador de alimentos do mundo e importador de diversos insumos agropecuários, o Brasil faz negócios com o mundo todo. Tendo a China como principal parceiro comercial, e União Europeia e Estados Unidos como segundo e terceiro principal destino das exportações do setor, o agro brasileiro é pragmático.

Nesta disputa geopolítica, o Brasil é visto como uma peça muito importante, tanto pela grande influência que exerce nos demais países da América do Sul, quanto pela sua grandiosidade em termos de recursos naturais e produção de alimentos. Este soft power ainda é pouco explorado pelo Brasil, neste jogo de xadrez global. A força do agro brasileiro vai muito além da sua alta competitividade. O uso estratégico desse ativo pode trazer benefícios relevantes não só para o setor, mas para todo o País.
*Sueme Mori é diretora de Relações Internacionais da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA)

*Artigo publicado originalmente na Broadcast Agro/Estadão
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