Por Isabel Filgueiras, Valor Investe — São Paulo
Todo mundo sempre dizia que para ganhar mais que a poupança, o melhor e mais seguro era para o Tesouro Direito. O advogado Raul* então escolheu um título que julgou interessante para aportar uma grande quantia que havia recebido após uma causa bem-sucedida, pela qual esperou bastante tempo para dar certo.
Como todo brasileiro que acompanha os preços no supermercado e o noticiário, ele sabia que era importante se proteger da inflação. Assim, entendeu que um título atrelado ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) seria o mais indicado.
Buscou e, calculando até quando estaria disposto a deixar o investimento ali, optou pelo Tesouro IPCA + com vencimento em 2035. Os juros reais (descontando a inflação) eram bem interessantes. Perfeito. Fez o aporte em duas partes. Num dia e noutro. Ah, também dividiu uma parte no Tesouro Selic, para diversificar e deixar ali à mão.
Passados alguns meses, soube que brevemente poderia abrir uma oportunidade de sociedade num escritório. Neste caso, precisaria tirar o dinheiro em um futuro mais próximo do que imaginava. Mas quando foi conferir o saldo, tinha bem menos dinheiro. Sim, com cerca de R$ 3 mil a menos.
A suadeira começou. A palpitação não parava. E o sentimento de "tem algo errado aqui" veio com força. Quando você está certo de que uma aplicação é totalmente segura e vê um saldo negativo, os primeiros pensamentos costumam ser de que há um engano.
"Como assim? Não é ação. Nem invisto na bolsa porque não entendo. Acho arriscado. Mas o Tesouro, não", questionou o advogado, ainda confuso. E agora? Vai continuar perdendo dinheiro? Tira? Deixa o dinheiro ali?
Para quem acompanha o mercado financeiro, a tal da marcação a mercado, fenômeno que explica o que aconteceu com as contas de Raul, é algo corriqueiro, que já entra no cálculo dos riscos. Mas para o investidor iniciante ou que simplesmente não tem o tempo e a disponibilidade para entrar a fundo nos conceitos de finanças ela é, sim, um bicho de sete, oito, nove cabeças. Cabeças demais para entender. Não faz sentido.
A explicação
Calma, Raul. A primeira coisa a saber é que essas perdas podem ser passageiras e que se você realmente conseguir levar a aplicação até o vencimento não irá sair com menos dinheiro do que entrou. Terá ao fim, o retorno que foi combinado no momento da compra dos títulos .
No entanto, o que ocorre é que no dia em que você investiu as taxas estavam mais baixas do que se encontravam no dia em que fez a consulta ao saldo. E isso fez com que os títulos na sua carteira sofressem desvalorização. É a chamada marcação a mercado, que é diferente da marcação na curva.
Na curva, há um cálculo que estima o quanto você teria a mais naquele dia, considerando ganhos dos juros que você aceitou receber sem nenhuma interferência do mercado. Mas a marcação a mercado é a realidade. Não só uma projeção. Ela aponta quanto seu investimento vale naquele momento, dentro de uma dinâmica de oferta e procura.
Especificamente no exemplo do Raul, ele passou a ter perdas, ou seja, um retorno negativo. Contudo, ele pode ficar positivo também e fazer parecer que de uma hora para outra a pessoa ganhou muito dinheiro. "Caramba, ganhei 21% em só três meses!" Isso é o que ocorre quando a curva está a favor da sua carteira. Mas quando isso acontece, ninguém estanha muito. Afinal, você investe é para ganhar mais dinheiro mesmo. Sem reclamações quando o bolso fica mais cheio.
E não é apenas no Tesouro que este movimento de "prejuízo" pode ser identificado. Desde o início deste ano, as debêntures, que são títulos de dívida privada de empresas, também exibem os efeitos da marcação a mercado para os investidores pessoa física.
Não é incomum ver perdas. O susto foi grande durante os primeiros meses do ano, quando o efeito do calote das Americanas deteriorou a situação do crédito privado no país. Com a disparada da desconfiança na capacidade de as empresas honrarem suas dívidas, os prêmios de risco (também chamados de spread) dispararam e os papéis perderam valor.
Mas o que fazer?
Diante desse tipo de situação, planejadores, assessores e consultores financeiros costumam aconselhar os investidores a deixarem o patrimônio ali, sem "realizar as perdas". Ou seja, se você não fizer o saque é como se o prejuízo não se concretizasse.
O resgate antecipado (antes do vencimento) de um título em desvalorização só deve ser realizado em situações especiais e muito necessárias. Por exemplo, se houver uma oportunidade dentro ou fora do mercado que tenha um alto potencial de apagar o prejuízo momentâneo da aplicação. Ou para pagar uma dívida cujos juros vão além dos ganhos do investimento.
Ou ainda uma situação emergencial que consuma além da sua reserva. E por último, se essa perda, mesmo que momentânea, esteja tirando seu sono e o preço da sua paz seja menor que o saldo negativo. Há quem diga que não há preço para o sossego.
Outra alternativa para evitar um prejuízo grande, mas sair das oscilações da marcação a mercado é esperar por um momento de saldo positivo ou com perdas menos acentuadas para liquidar o título. Em todo os casos, a calma e a paciência são fundamentais.
A lição
Nas corretoras, os investidores precisam responder a um questionário que tenta agrupá-lo dentro de um perfil de tolerância ao risco. Esta etapa é obrigatória e é uma forma de tentar mitigar esses "sustos" ou que investidores apliquem em algo que não compreendem ou não estão preparados.
No entanto, se uma das respostas for investimento de longo prazo, por mais que a pessoa seja conservadora e não suporte perder um centavo sequer, o perfil dela poderá ser lido como moderado ou mesmo arrojado.
Este é o caso de títulos do Tesouro de longo prazo, que possuem uma oscilação alta, mas ainda assim são de renda fixa e com baixíssima chances de calote, portanto constatemente percebidos como livres de risco.
Talvez seja interessante não colocar somente para investidor a conta de responsabilidade de saber onde está entrando. Avisos de que poderão ocorrer oscilações no título são bem-vindos .Amigáveis letras vermelhas e destacadas antes de confirmar a operação podem salvar os mais desavisados de grandes sustos.
E de uma próxima vez, após aprender a duras penas, Raul fará os cálculos de forma diferente, separando uma caixinha além da reserva de emergência. Aquela que os planejadores financeiros apelidam de "reserva de oportunidades".
*Troca de nome a pedido da fonte
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